Srila Atulananda Acharya


Deixe um comentário

como a alma foi criada?

– perguntas e respostas
Como a alma foi criada?

Quando se criou a alma e por quê? Se nós reencarnamos várias vezes como consequência de nosso karma, quando começou esse ciclo? Porque temos que sofrer, se Deus criou a alma no princípio de tudo? 

Essa é uma pergunta muito comum, talvez a mais típica de todas. Justamente ontem um jovem questionou com outros termos a mesma coisa, o ponto era o mesmo. Eu lhe disse que essa pergunta não tinha muito sentido, que não nos servia para muita coisa porque na realidade nós não entendemos muito de nada e a finalidade não é entender tudo o que Deus faz e sim amá-Lo com fé.

Gurudeva Paramadvaiti disse uma frase que me pareceu genial: “Querer entender Deus vai contra ao que Deus significa”.

Os que perguntam isso, em geral, não estão satisfeitos com esse mundo ou criação e isso é muito bom, daí então que vão ao outro mundo do êxtasis, isso é tudo. Fomos criados por amor e esse mundo é para crescer. Se já queríamos nascer no paraíso é porque não queremos trabalhar por esse amor. Pensamos que amor significa não dar trabalho, mas o Guru nos dá muito trabalho e quando uma pessoa não tem trabalho se sente frustrado.

Se alguém vê esse mundo como um lugar de dor é pela graça de Krishna e por isso pode avançar e deixar esse mundo para trás, disso se trata na realidade. Queremos receber o amor de Deus, mas sem amá-lo. Queremos ser criados diretamente no paraíso, mas aqui também é o paraíso se quisermos serví-Lo e se somos humildes e nos apegamos aos vaisnavas. Esse mundo nos obriga a crescer, do contrário existirá dor, por Ele o mundo é bom. Porque Krishna assim deseja, o mundo deve ser bom.

Eu disse a esse garoto ontem, não se trata de questionar o que Deus fez. Como fez está perfeito, trata de aceitar e assim você terá a compreensão sã e correta. Não devemos pensar: eu teria feito de outra maneira, melhor que Deus. Seria absurdo, já do começo é uma besteira pensar assim! Uma vez agradeci por ter vindo a esse mundo, senti que Krishna nos havia mandado a uma dura escola para aprender a amar. Ele enviou seus próprios porteiros para brincar com Ele (passatempo de Jaya e Vijaya). Ele mesmo vem aqui a nos salvar, a dar néctar. Sua presença está aqui, Seu néctar, Seus devotos.

Este mundo não permite que Krishna seja enganado, quem não quer serví-Lo terá que sofrer. Não pense muito, se renda. Santa Teresa dizia: quanto menos entendo, mais creio. A grandeza de Deus consiste justamente nisso. Não é para entendê-Lo, é para adorá-Lo. Os que se rendem a ele encontram que essa rendição está em todas as respostas, tudo se torna claro. Esse mundo é escuro, mas Krishna nos dá um caminho para sair em direção a luz – e esse caminho não é se perguntar “porque não fez de outra maneira, de um jeito em que eu não tivesse que trabalhar, que eu não tivesse que lutar contra meus anarthas e nada mais?”. Assim, queremos um amor grátis dado de presente.

Pensamos que as Gopis têm um amor grátis, grande erro. Elas choram dia e noite por seu amor, isso sabemos bem. Quando lemos é bem bonito, mas quando você vive isso é bem forte. Agora oramos para poder chorar por esse amor, oramos para alcançar esse nível, e chorar não porque tenho que pagar as contas, porque faz frio ou porque minha esposa me deixou. E quando chorarmos por esse amor, veremos que é algo muito forte.

Lalita e Visakha pensam que Sri Radha vai morrer e não é brincadeira. Aqui choramos por uma dor de barriga, mas lá choraremos por uma dor do coração – então preparem-se!

Sem espírito de sacrifício tudo será uma dor insuportável. Se aqui há um espírito de sacrifício você pode tolerar esse mundo e muitas vidas, mas se só quer desfrutar, nem os passatempos de Krishna serão atrativos o suficiente, e você irá querer o vazio ou brahman. Por isso seguimos a linha de Srila Prabhupada e Srila Sridhar Maharaj e estamos bem assim, não estamos na linha do desfrute.

Assim, a origem da alma é amor e amor é um contínuo crescimento, é um contínuo morrer para viver, é um contínuo descobrir: minha vida fracassou, minha existência inútil, não consegui amar, não posso dar mais do que recebi, sou um endividado em crescimento acelerado. Mas quando um quer receber mais do que dá, fica doente e se torna um comerciante da alma, do amor – e não entende nada e pergunta: “Porque Deus me criou? Só para sofrer?”.
Não, Deus te criou para que você jamais sofra, mas isso não é para preguiçosos, egoístas e luxuriosos. Por isso a dor é tão boa, porque não permite que você seja ruim. Quando sabemos que alguém está sofrendo, ficamos contentes porque sabemos que essa pessoa vai começar a se comportar bem, vai se aproximar de Krishna. Assim pensamos.

O ponto é que não devemos pensar tanto: “porque fez assim?” e sim pensarmos “que devo fazer?” Se essa pessoa faz o que Deus lhe pediu vai compreender tudo com mais clareza e não vai se queixar tanto porque não pode desfrutar. Ao contrário, vai se queixar por ter feito Deus sofrer.

Se Deus te deu muito pouco e te pede muito, isso é bom, é uma grande oportunidade de desenvolver um grande amor. Se é preciso te dar muito para que você dê um pouco, ou para que também dê muito em troca, isso é comércio. Por isso acredito que essa pessoa deve estar agradecida por ter sido enviada a esse mundo onde pode entregar sua alma a Deus com todo amor e rendição apesar de ter sido enviada a um lugar que não era o melhor. Krishna pensará: “envei ele ao mundo material, ao inferno e segue me amando, ele Me conquistou!”. Isso aconteceu com Bali Maharaj, um mahajana. Desse modo, sejamos mahajanas (grandes personalidades eternamente liberadas) e não chorões por não ter as coisas fáceis. Além disso, se não temos tão facilmente é porque Krishna sabe da grandeza da alma, a grandeza de seus átomos. Tanto se pode dizer a esse respeito que justamente meditando nesse tema escrevi uma espécie de artigo ou poema chamado “Mundo”.

Em resumo, a resposta a isso é: AMOR. O ponto agora é ter esse AMOR e essa é a eterna tarefa do Bhakti. Um eterno questionamento: “por quê Krishna fez isso e essa outra coisa?” Essa pergunta aparece inclusive no Brihad Bhagavatamrtam. Vemos mesmo Uddhava, Balaram e Subhadra discutindo esses temas. Vemos as próprias Gopis com essa pergunta em seus santos lábios. Esse é Krishna,acintya, não é barato, pouco para a mente e inteligência, muito para o coração.

Obs.: Os que se perguntam “por quê Krishna nos enviou para sofrer nesse mundo?”, significa que ele se deu conta que todos sofrem nesse mundo e isso já um grande avanço. Srila Prabhupada disse que quando alguém se pergunta “porque sofro?” aí começa sua vida humana. Então ao invés de se chatear com Krishna por ter criado esse mundo, essa pessoa deveria perceber que está sendo convidada por Krishna para ir até o mundo superior. Esse mundo não é tão mal porque nos prepara para o mundo superior. Antes fazer essa pergunta as pessoas na verdade não sofreram muito, estão num estado de anestesia. Mas assim que perceberem que tudo é sofrimento Krishna aparecerá em suas vidas chamando através de alguma religião e começará a consolá-los.

vsisnu


Deixe um comentário >

– perguntas e respostas
Como curar-se do sentimento de querer que o mundo se adapte a você?
segunda feira, 18 de fevereiro de 2013

Você nunca deve apegar-se ao resultado do seu serviço. Então se o mundo não se adapta como nós queremos é porque Krsna quer isso. Você deve desenvolver tolerância e seguir a vontade de Krsna.

Para acabar com a ira, você deve entender que Krsna tem a ultima palavra, não ser rebelde com a vontade de Krsna e ver sempre o bom ou esperar, que logo virá o bom.

Krsna sempre está se escondendo para que nós façamos o esforço de encontrá-lo. “O sábio sempre Me vê, o ignorante nunca Me vê”. Então aí há diferentes relações, por exemplo: nós queremos que todos cantem o Santo Nome, mas não é real. É como Srila Prabhupada disse: que se atinja um só devoto puro de sua missão e estará satisfeito.

Devemos estar dispostos a gastar muito sangue para salvar apenas um com a energia de salvar o mundo, devemos ter essa ambição, com ambição vamos ter entusiasmo e desejo de lutar. Srila Prabhupada dizia que se vai caçar, vá por um rinonceronte, se vai roubar, vá roubar um banco. Sempre veja o maior. Assim as pessoas se surpreendem. Se você rouba um banco vão dizer que é um gênio, porque eu nem me atreveria a tentar.

Então em geral as coisas nunca vão sair como nós queremos, porque comprovamos que Krsna é quem manda. Brahma criou a ira depois da frustração. É natural que isso aconteça, é um dos elementos próprios de Maya, estar confuso e iludido por não ter o que quer. Isso faz parte de nosso sistema mental. Então se você não se importa, está alcançando a natureza divina, porque está sempre cedendo à vontade de Krsna, deixando-lhe a última palavra. Krsna diss que você não é dono do resultado, tem o direito a teu dever prescrito mas não ao fruto da ação, mas isso não é motivo para desanimar-se nem deixar seu dever. Deve cumprir seu dever, assim que devemos estar sempre satisfeitos e essas são uma das coisas que Me conquista, se inclusive na pior adversidade recorrer a Krsna, isso o agrada e teu reviço vale mais. Krsna se impressiona que esteja glorificando isso, isso quer dizer que não estás trabalhando para ti, mas para Krsna completamente.

radhakrsna


Deixe um comentário

o amigo do meu coração


Amigo em sânscrito é suhrit, que quer dizer” aquele que é agradável para meu coração”.
Como o objetivo de nosso coração é conhecer a Sri Krishna e como Sri Krishna tem estado ali desde tempo imemorial, como um hóspede ignorado, o melhor amigo é aquele que nos apresenta ao Grande Amigo e nos relaciona com Ele de forma permanente, através do sábio e são compromisso do serviço.

Deste modo, o devoto de Krishna é o perfeito amigo, e em Gurudeva Paramadvaiti podemos encontrá-lo de forma maravilhosa já que está sempre tomando nossos cabelos e puxando-nos a dedicação à Krishna.

O devoto sincero sente em seu interior, de alguma maneira, o desejo de Sri Guru e alimenta assim o desejo de obedecer seu pedido, esta é sua experiência interna. E em seu mundo externo, ele vê a graça de seu mestre na forma dos muitos devotos que vem assisti-lo. Desta maneira, de forma natural, se torna amigo deles.

Amigo é aquele que se preocupa pelo meu bem mais do que eu mesmo. Esta virtude vemos em Gurudeva Paramadvaiti, quem sempre está velando para que nunca fiquemos sem serviço e trata de nos ocupar de forma responsável, para que estejamos comprometidos de corpo, mente e inteligência e por suposto, também de coração, graças ao afeto que sempre nos entrega.

É muito difícil nesse mundo encontrar um amigo como ele, as mahatma sudurlabhah, por isso, quem o conhece deve-se considerar uma alma muito afortunada, pois graças a esse maravilhoso encontro, seu caminho aos pés de lótus de Sri Krishna está livre, somente deve transitá-lo com plena fé, entusiasmo e determinação. O encontramos sempre sorridente, sempre animando nossos pequenos desejos de servir a Krishna.


Deixe um comentário

giri govardhan

“Querido Krsna – oraram todos eles –
Tu sempre proteges a Teus devotos,
Veja como Indra dos ataca severo,
Salve-nos, oh Senhor afetuoso!

De Ti dependemos, és nosso amparo,
A ira de Indra nos importa pouco;
Cuida dos Teus, homens e gados
Mostra-nos Teu lila maravilhoso!”

“Ensinarei a Indra que sou o Supremo
– Pensou Krsna desejando favorecer-lhe –
Sua vaidade e poder lhe levou a este extremo,
E sendo Meu devoto, assim Me agride.

Devo quitar-lhe o orgulho em que tem caído,
Corrigir-lhe, pois és uma alma rendida,
E devo também velar pelos Meus,
Que aos meus pés têm disposto suas vidas.”

Pensou assim Krsna e levantou a colina,
Como levanta um menino um cogumelo do solo;
Assim mostrou este surpreendente lila,
E se dirigiu a Seus bhaktas dizendo:

“Venha toda Vraja, famílias, irmãos!
Abriguem-se aqui! Não tenham temor!
Eu penso que aqui estarão a salvo.
Venham todos, não demorem por favor!”

Uma semana estiveram a resguardo,
Baixo o cuidado do grandioso Menino,
Que com o dedo mindinho de uma só mão
Manteve todos dora de perigo.

Não sentiram fome, nem sede, nem fadiga
E Indra ficou todo surpreendido
Ao ver este poder sem medida,
Ordenou as nuvens seu pronto retiro.

Céu azul, brilhou o sol, cessou o vento,
Krsna disse: “Já tudo passou,
Vão Meus vaqueiros, sem contratempos,
Levem suas mulheres, filhos e gados”

Krsna deixou ali mesmo a montanha,
E recebeu o abraço de Sua família;
As gopis também muito agradecidas
Lhe serviram uma deliciosa coalhada.

Os siddhas, os gandharvas e caranas
Choviam flores tocando tumburus;
E enquanto Krsna regressava com os Seus
As gopis com amor, cantaram Suas façanhas:

“Oh, grandioso Krsna! Quem são os devas?
A ti comparados, quanto valem eles?
Com o dedo mínimo de Tua mão esquerda
O poder de Indra conténs sorrindo”

A teus pés de lotos chegam seus clamores,
Quando a suas moradas perturba um asura;
Mas os gananciosos invocam os nomes,
De deuses e demônios, pedindo

Ai, o amor que dás, tesouro que não ocultas!
Mas em Kali-yuga tão poucos te adoram;
Como Gaura vens e ansioso nos buscas,
Mas, dados ao prazer, muitos Te ignoram!

[Srila Atulananda Acarya
Los bellos passatiempos de Krsna]

Vídeo do Govardhan lila por Gurudeva:
Govardhan lila

 


Deixe um comentário

sri damodarastakam

Sri Damodarastakam – tradução e adaptação por Srila Atulananda Acarya

Saúdo o Senhor de eterna forma de gozo,
De brincos brilhantes que nasce em Gokula,
Foge de Yasoda como temeroso,
Mas ela é mais veloz e O captura

Muito forte pranto derramam Seus olhos,
Os que esfregam Suas mãos de lótus,
Seu pescoço de três linhas treme agitado,
E o colar de quem por bhakti é atadoEstes passatempos são lagos de gozo,
Em que submerge Seus devotos,
Que o bhaki puro conquista demonstra,
Com amor Lhe ofereço centenas de reverências

Óh Senhor de graça! De Ti não peço,
Nem liberação nem Vaikuntha mesmo,
Esta forma Tua de menino Gopala,
Mostra sempre em mim, fora disso nada,

Teu rosto de lótus com cachos negros,
Os beijos de Yasoda tingiram,
Com seus lábios rubros qual fruta bimba,
Só isso mostra, nada mais me anima

Reverências Damodara, Ananta,Visnu
Tem piedade, estou em aflição perdido
Olha com Tua graça a este pobre caído,
Mostra-Te a este tonto, seja compassivo

Como salvaste aos filhos de Kuvera,
Dando-lhes cabida a Tua devoção sincera,
Assim o prema-bhakti a mim também presenteia,
Não me dês mukti, óh Damodara!

A essa refulgente corda reverencio,
E a Teu abdômen que guarda o universo,
Reverencio a Radha por Ti tão querida,
E a Teu ilimitado e divino lila

Imagem


Deixe um comentário

razão de ser

Os Sadhakas estavam mais belos que nunca, reluziam com suas cabeças recém raspadas e as linhas do belo Tilak decoravam suas testas consagradas. Seus dedos inquietos passavam as contas de Tulsi e o êxtase banhava seus corações. Em tal condição se aproximaram da choça de barro onde o Santo Mestre guardava seu retiro sagrado. Um jovem os acompanhava e uma pergunta inquietava seu espírito: Por que fomos criados? Por que viemos a este mundo? Se Deus é perfeito por que nos deixou sair de Seu lado?

O Santo Mestre está cheio de paz e doçura, está cheio de amor e sabedoria. Ele sorriu, olhou com olhos profundos, falou com voz resoluta e contendo a debandada de seus muitos sentimentos entregou o que eles podiam compreender nesse dia: “Que o Santo Nome expanda tua compreensão e te dê entrada ao mundo sensível! Oh alma inquisitiva! A verdade se revela como uma lenta aurora e desperta a ave do ser para que inicie seu voo no céu do encanto infinito! “Para que fomos criados?” perguntas. Tenta entender a posição desse Bem Absoluto, de teu Pai amado. Ele quis te criar, Ele quis dar-te Seu amor. Um dia na Sua doce e infinita bondade, vendo-te uma faísca dormida no oceano de Sua transcendental refulgência, com amorosa voz se dirigiu a ti disse: “Do oceano de luz da minha própria refulgência, Oh faísca divina! Oh alma! Te desperto, Te dou independência, vontade, personalidade, oh pequeno corpúsculo de luz, viverás sempre sedenta de Mim e eu de ti.

Tu sabes, sou amor, nada mais que o amor Me satisfaz e Me subjuga, tudo se subordina a ele. O conhecimento, a ciência, a riqueza, tudo é regido pelo amor. Só isso interessa a mim, só isso interessa a ti.
Eu te crio livre, podes vir a Mim agora, a Meu universo, a Minha grandeza, mas olha: Sou tudo, tudo é deslumbrante e fascinante para ti. Minha energia material externa também pode te cativar, embora não seja mais do que sombra da Minha maravilhosa excelência. Agora em tua livre escolha, te inclinaste por adorar Minha sombra. Minha sombra estendida sobre universos infinitos. Minha sombra de montanhas e de mares, de galáxias e de musas. Minha energia transformada em sóis e sistemas, em águas, ventos e cascatas. Minha sombra como morta, como insensível e muda, Minha sombra de anônimo reflexo, de solitárias luas.

Mas te chamarei, sempre te chamarei. Ao principio não poderás descobrir-me. No princípio amarás os lagos, os pássaros, os alcantilados apertados ao abismo. Amarás a flor e o átomo, a ciência abstrata e o corpo.

Como o amante que aspira a rosa esquecida ansiando a mão que a sustentou, assim tomarás Meu perfume das estrelas e das rochas. Sentirás Minha essência de pássaro fugidio, o vazio da Minha ausência. Sentirás-me escapando como a mesma presa que se dava por ganhada.

Nas tuas muitas vidas, de variadas formas, desfrutarás de meu mar e de meu espaço, de meu éter e da minha terra. Através da mente e da inteligência, experimentarás formas e sabores em milhares de corpos, de vidas, de famílias, de labirintos perdidos na tua desentranhada história.

Eu te verei caminhar. Caminhar até mim. Buscando meu amor. Minha carícia e sorriso, provarás frutos aqui e ali. Frutos sensuais, frutos de ciências, de muitas experiências, de milhares de amores vindos e idos entre amanheceres e o pôr do sol entre poemas e sonhos que darás por certos.

Serás filósofo, serás ave, serás monge e lavrador, levando teu coração encravado no peito como um cálice sedento de amor. Minha sombra neste deserto te deixará a alma seca.

Verei-te me buscar e me negar, te verei me amaldiçoar e sofrer, enquanto sejas um amante cômodo, enquanto não sejas um amante sábio. Às vezes tu tomarás as redeis da justiça, às vezes tu estabelecerás regras morais, irá querer corrigir ao homem, a sociedade, a natureza, incitado por um passional e efusivo espírito; sem saber nem de causa nem de efeito, sem saber nem de carne nem de espírito, em teus poucos dias irá querer discutir a origem do universo e até onde caminho com meu século de séculos.

Mas teu ódio a mim será fruto de teu amor imaturo, verde e azedo. O acalentarei com Meu olhar, o encubarei com terna voz que ouvirás na profundidade de teu espírito e já verás: o tornarei mais doce que o mel, mais suave que o figo.

Não poderás negar o sol e Minhas outras maravilhas, como um longo jogo, te darei e te quitarei, como as pétalas da margarida, só para te dizer que te amo.

Cada alma alçará sua torre de Babel e irá querer chegar a Mim com a força de seu espírito. Com a força de seu espírito manterá viva sua esperança, sua esperança de que deve ter algo mais, algo mais além do mundo da mente e dos sentidos…

Buscará energias, rasgará a terra, rastreará o oceano, cortará o átomo, com cristais enormes entrará sem permissão no cosmos, e enviará ao céu mosquitos metálicos. Nada saciará a sede de teu coração imenso, pequena faísca. Minha sombra de ciência, de bem e mal, de paz e guerra, de nascimentos e mortes, de imenso espaço, de imenso silêncio, não te poderá saciar, toneladas de diamante, toneladas de energia, toneladas de ciência deixarás de um lado e buscarás, buscarás, meu filho, o que teu coração te pede, saciar a fome de teu espírito.

Babel, o esforço por alcançar-me armando a torre do orgulho. Farei-te cruzar muitos caminhos, subir picos, recorrer vales, ovacionar triunfos, chorar fracassos. Será teu caminho, tua ilusão, tua solidão, tua peregrinagem calada e solteira, abismantemente acompanhado e solitário, com tua alma, como deixada ao fundo com seu eco distante.

Sabes amor, que poemas canto ante o correr de tua busca? Faço-te pequena, mas grande nas tuas visões. Darei-te um universo, mas o acharás insuficiente, irás querer deixá-lo quando não encontres nele a doçura de Meu espírito. E assim elogiarei teu amor, e tu, Minha grandeza, e nos amaremos mais e mais, nos amaremos dia e noite, e dirão que Sou um enganador e que tu estás louco.

Mas antes me amarás como rocha ou como trovão, como sol ou como vento, como homem ou mulher, como pai, como mãe, como filho, como céu, como música, como amigo ou universo, sempre me amarás de alguma maneira…

Quando estejas mais forte cortarei teus planos, teus sonhos, tuas esperanças, tirarei teus amigos, tua família, teu dinheiro, como podando o frugal para melhorar seu fruto, como podando a roseira para fortalecer a rosa.

E tu virás a Mim, virás a Mim correndo, alguns dirão que tome cuidado Comigo, que Sou um enganador e outros dirão que tu estás louco, mas ambos estaremos embriagados na fascinação de nosso amor, porque quero que teu amor por Mim seja grande, porque é muito grande o amor que por ti eu tenho.

E verás que aquilo que cortei de ti, que atirei a teus pés como despojo inútil, se tornará adubo da tua raiz interna, e teus planos serão ter-me, Meu abraço tua esperança, o mundo teu amigo, cada ser tua família, tua riqueza a pureza.

Oh alma! Quero fazer-te luz, quero fazer-te amor, quero fazer-te anjo, deixa-te fazer entre o calor das Minhas mãos, deixa-me apertar-te contra Meu peito anseiante. Deixe-me levar-te a brincar a Vrindavan!

Que tens sofrido? Que tens chorado? Que passaste fome, frio, injustiça e pobreza? Por que Me deixaste? Por que te afastas de Mim? Por que não escutavas aos Meus Santos?. Eu sei que me apontarás, me culparás de teu sofrimento, que não fui generoso em te dar vontade e entendimento… Tudo o tenho e tudo te darei, todas as jóias sagradas de Meu imaculado espírito, mas não sem que antes o fogo da tua dor, tenha orado humildemente por obtê-las.

Oh dor, bela dor! Disse um Santo, que sem ti não há amor verdadeiro. Amor é dor. Dor por não ter ao ser querido, ou porque ao obtê-lo teme perdê-lo.

Deixarei-te ir às vezes que queiras, cada vez que penses impor tua cruel independência, desconfiança; mas cada vez que me deixes sofrerás com dor Meu afastamento, porque Oh centelha de amor! Como poderás viver fora de meu fogo que te abraça?

E assim analisa, Oh alma, que a dor é causada pelo mundo e que a Mim ao fim te leva, mas as alegrias passageiras te perdem num labirinto de interminável Samsara.

Tudo é para teu bem, Sou teu amigo, tua meta, teu sustento, teu descanso… Amo-te, não duvides, te amo, o declarei em milhares de livros e o afirmam milhares de sábios… Dou-te universos para que alojes teus sonhos, mas tua necessidade de Mim é maior que eles, e eu o sei, um dia os deixarás como dejeto usado.

Por que não vens? Eu te convido, Eu te chamo, só Eu te espero. Alguém, mais te chama? Alguém mais te escuta e te espera? Sou Eu, te juro que Sou Eu, Sou Pai, Sou Mãe, Sou amigo e esposa, Sou filho e filha, que venho te buscar com amor, pois Sou Amor, Sou só Amor, o Rei de tudo, o, mas sábio, o, mas poderoso, o, mas científico, o, mas necessário, o, mas amado, o, mas auto satisfeito e o maior, mas ainda assim busco-te e te reclamo, Oh átomo pequeno, Oh luz da minha vida!

Como brilham prateadas as estrelas, refletindo o esplendor do dourado sol, assim por Mim em cada peito brilha em diversas medidas, o esplendor de Meu amor.

Como há ondas num rio descendo para te buscar, Minhas encarnações como avatar são infinitas, eu mesmo advenho em pessoa ou nas Minhas distintas expansões, e em outras ocasiões Meus próprios amados devotos o fazem para entregar em forma magnânima esse amor extático que em Meu reino abunda.

Jamais te deixo. Sou terra, sou sol, sou lua. Espio-te de dia e de noite, sou mente, sou esse ar que se encontra dentro e fora de ti. Essas são Minhas energias. As criei para te dar espaço e para te cuidar, para saber de cada passo teu, para assegurar-me de que algum dia virá a Mim.

Tive que dar-te liberdade para fazer-te pessoa, e assim estou disposto a sofrer a dor de teu afastamento, estou disposto a sofrer a negação de teu amor por Mim. Mas tentarei te deixar mais belo. Gostas do brilho das Minhas estrelas, o calado passar da Minha lua? Gostas do canto das minhas cachoeiras, o perfume das Minhas rosas, Minhas nuvens, Meus lagos. Quanto fiz para ti?

Uns farão sua ciência, ditarão decretos, encherão bibliotecas anunciando ao mundo: não existe Deus! Só o homem é grande, só vale nossa lógica e evidência. E assim amarão Minha energia sutil, abstrata, o átomo invisível e elogiarão a grandeza das Minhas pequenezas. Em tudo o que vejam ou descubram, sentirão que algo não têm, que algo falta para completar a compreensão, nunca lhe saciarei a fome de Mim, nunca os deixarei sem Mim; porque nada é tão só o que tu vês, é também seu propósito de existência, e todo o rijo e administro movido pelo amor, com esta doce energia manipulo e impregno toda a criação.

Verei-te, alma, como uma criança que engatinha, como um jovem que descobre. Descobrirás-me a cada passo, me trocarás por uma ou outra coisa, mas sempre serei Eu o objeto de teu anseio, porque ansiarás a paz, felicidade, o amor que só em Mim se encontra.

Às vezes, também, pensarás que já me tens, que uma igreja ou tradição da explicação de Meus atos e existência, que a um grupo pertenço, que uma denominação Me apresa, convencido na tua fé condenarás a teus irmãos, que também Me buscam, que também Me anseiam, embora me chamam com certas diferenças, com outro nome, de acordo as suas culturas. Eu dou a fé, de Mim provém o conhecimento, Eu abençoo os bons que me buscam com afane candoroso, Eu me revelo ao que me ama, e Me move uma ciência de princípios eternos, a ciência de Meu amor, a ciência de Meus caprichos que me faz brincar com Meus Devotos.

Nada externo me embeleza, Sou a Verdade, digo a Verdade, e os puros a compreendem e conhecem, isto é assim desde a infinitude dos tempos. Porque como posso calar eu, o que amo? Como pode calar o que acolhe, conduz e protege? Mas Minha voz só escutam os bons, que desejam crescer em espírito; e com orgulho declaro: Sou o escravo de Meus devotos.

E quando, Oh alma, descobrirás assombrada teu luminoso ser, quando vejas a luz da Minha infinita presença, pensarás que somos “um” e que tu tem se fundido em Mim. Dirás: Sou Deus, sou tudo, o um. Assim como já antes amaste Minha sombra como o todo, ou como já antes adoraste o poder da tua mente e o do átomo, ou a grandeza universal, agora ao ver-te, ao descobrir tua face de pequeno e radiante espírito, do tudo abarcado pelo brilho de Meu Ser, pensarás que somos “um”, que tem deixado de existir para estar em Mim. Mas Eu amo tua existência e te chamo para Meu amoroso serviço, na fusão luminosa não está a relação de amor eterno que contigo anseio. Para que te dar vida e te devolver logo ao sonho de uma existência impessoal?

Como um Yogui ainda, mais avançado, Me verás na Minha forma de quatro braços, Paramatma, situado em todo coração, em cada partícula de matéria, compenetrando tudo o que é, porque escuta, Meu amor, alma: Nada pode existir sem Mim.

Mas também deixarás tua prática de silencioso asceta, deixarás tua meditação imóvel e tua absorção no ser interno e buscarás a Mim, buscarás Meu afetuoso abraço, Meu amoroso olhar, Meu consolador refúgio. Não quererás mais Minha afastada presença, Meu mudo quietismo, e largará de lado teu poder, teu misticismo, tua fascinante postura de Yogui refulgente e Me quererá como uma criança que busca a seu pai, como um amigo que anseia a seu amigo, como um amante a seu amado.

Tocarei Minha flauta, brincarei na beira do Yamuna, me esconderei entre os Kadambas, para tornar-te louco por mim, correrás por Mim, Oh alma. Terás chegado ao fim de teu caminho, terás chegado ao abismo de Meu Amor.

Deixei-te ir, amor, te deixei afastar-te de mim só para fazer-te voltar correndo ao Meu refúgio. Foi só uma faísca na luz de tua existência… É assim o jogo do amor, há bajulação e censura, há carícia e golpe, há canção e silêncio.

Queres compreender, mais profundamente? Queres compreender esta lei do amor divino que tudo rege? Amando entenderás tudo. Esse sol do amor puro iluminará tua vida e entenderás todos os caminhos e abraçarás a todos os seres por meio do pensamento de Meu bondoso Ser. Enche-te de mim, ultrapassa-te de Mim, sacia-te plenamente de Mim.

Oh alma, Oh centelha inquieta e insaciável de amor! Dou-me de todo a ti, te amo plenamente e por isso te tenho criado e te fiz livre, te fiz pessoa para que Me escolhas e Me ames, vêm, vêm a Minha morada, não duvides de Mim. Meu amor por ti é imenso e eterno, é infinito é puro. Minha amizade até ti, Minha mão estendida a tua pequena existência, a mantenho aberta, pelos séculos dos séculos á espera da tua.

Vem, vem a brincar a Vrindavan, deixa teu petulante sonho; neste mundo de solitário passo não és nada; no Meu, és Meu amado, Minha amada, Oh ser, Oh alma.

Canta Meu Nome e chama-me, apropria-te de Mim e faz afortunados teus caminhos. Trarei-te ao lugar onde o amor reina supremo, onde a brisa vem carregada de fragrâncias, de versos e de rio; onde as árvores musicam arpejadas pelo vento, onde há aves encantadas, onde dançam os pavões reais e onde se acaricia o cervo. Trarei-te à Minha terra de lótus e de vacas, de flautas de bambu, de louros e eternos jogos.

Cresce, Oh alma, corre pelo campo do infinito espírito. Deixa o pântano, rejeita o reflexo passageiro. Quero te dar a realidade, quero adoçar tua vida, quero levar-te a Meu abraço e te ter comigo. 

Chamo-te, te convido, te grito e afligi tua existência, não tolero mais tua ausência e já decidi que devo fazer-te minha. Dei-te liberdade para fazer-te ser e não máquina, mas Minha conquista agora está decidida, Me apropriarei de ti e no trono de teu coração farei Meu assento. Toma Meu Nome de sedutor encanto, toma Meu ensinamento do Bhagavad Gita, ama a companhia de Meus Santos, desdenha o que o submundo escraviza. Chamo-te, te convido, te grito, te dou Meu Nome e preparo Minha conquista. Oh ser, Não tolerarei, mais tua ausência, Meu amor não esteve saciado sem o teu. Virás? Cantarás Meu Nome? Deixarás que Eu te rapte para sempre? Não Me importa a censura se tenho teu amor, Me dizem HARI, o ladrão, o enganador e a ti desde hoje te chamarão louco!”

O Santo asceta terminou seu discurso, e a voz do rio adornou o espaço de seu silêncio. O Santo Nome de novo se apropriou de seus lábios e seus olhos escuros, profundos e úmidos banhou os jovens puros, com seu olhar de graça.

Prostrados deram suas reverências ante o sábio, ante aquele que ainda guardava muitos segredos e ensinamentos, mas não era possível atesourar de uma vez o universo de suas realizações.

Os Sadhakas se foram pelo caminho que guarda a humilde grama, regozijados internamente por saber-se tão amados.

O Santo ao vê-los afastar-se, lembrou com um sorriso seu juvenil entusiasmo, e talvez terá escutado quando o jovem inquieto perguntava a seus amigos: Poderei também eu um dia ser contado entre o grupo dos loucos?.

– Razão de Ser. Atulananda Das, inspirado por Srila Guru Maharaj


Deixe um comentário

perfeição não é tudo

 

Perfeição não é tudo. É mais uma exigência do ego que do coração. O amor não exige perfeição, o amor exige amor.

Krishna se esconde atrás de um emaranhado de imperfeições. Ele se esconde dos perfeccionistas, invejosos e competitivos.
Ele busca aos que desejam a simplicidade do amor.

Não é alcançado nem pelos moralistas, nem pelos justos, porque eles não se baseiam no amor, eles somente se preocupam com o bem estar individual ou social, atuam no plano mais externo que interno. Não têm como objetivo a complacência do Senhor.